Sobre mudanças climáticas e percepções
Demetrio Luis Guadagnin*
Para entender por que o público se interessa ou não por um “problema” sugiro a leitura da sociologia ambiental de Hannigan. “Problema” é assim mesmo, entre aspas. Não se trata exatamente de percepção, mas de construção. Conforme a abordagem construcionista os problemas não existem em si, portanto, a rigor, não podem ser “percebidos”, ou ignorados. O que existem são fenômenos, como a mudança climática. Se o fenômeno será ou não interpretado pela sociedade como um problema depende de como o processo for construído. Segundo Hannigan, para que um fenômeno seja um problema três etapas de construção devem ser concluídas. A primeira é a Reunião das reivindicações – dados, fatos, números compõe esta tarefa.
Aqui entram os cientistas, divulgadores e a encíclica do Papa. O passo seguinte é a Apresentação das exigências – mídia, retórica sensacionalismo e comunicação social são o foco nesta fase. Aqui estamos nós, nesta fase. Notícias como as mais de 1000 mortes pela onda de calor no Paquistão são interessantes neste momento. Se uma questão não cair na mídia, não chega no povo. Precisamos de mais comunicação social e menos educação ambiental (no sentido prático da expressão – educar alunos). A terceira fase é para onde precisamos nos dirigir – a Contestação das exigências – indicar claramente o que precisa ser feito. Nesta fase o essencial é que as propostas sejam socialmente aceitáveis, ou seja, práticas, exequíveis. Por enquanto estamos falhando neste ponto, ou ainda não chegamos nesta etapa. Se nada for proposto, o problema não será um problema. Não por que será ignorado, mas por que não foi construído – as pessoas estarão se preocupando com “problemas reais” (construções exitosas). Acho que isso é uma explicação plausível, embasada teoricamente, para a questão central do debate aqui nesta lista de discussão. Se o discurso for escatológico – o fim do mundo está próximo, também não teremos um problema. Mais provavelmente teremos caos. Penso que ainda não temos um problema por que deliberadamente o “establishment” tem evitado a questão climática com medo de provocar caos.
Ideias que não estejam ao alcance das pessoas – uma revolução moral por exemplo, também não ajudam. Por exemplo, socialmente, a questão da água está resolvida, já não é mais um problema. Os dados de escassez e qualidade foram apresentados; houveram secas e outros dramas para chamar a atenção pública; uma instrução prática de contestação foi proposta – feche a torneira. O problema foi bem construído. A população aderiu. As torneiras foram fechadas. O problema acabou. Com o clima penso que precisamos de uma construção mais elaborada… Já que propor uma revolução está fora de questão no momento, quem sabe podemos começar com as ideias mais práticas sobre transição da matriz energética, metas de eficiência e ajustes macroeconômicos à moda Piketty. Um cuidado – não construir a mensagem de que andar de bicicleta é uma solução suficiente, assim como fechar a torneira. Coisas fundamentais, eu ando de bicicleta, mas todos concordarão que insuficientes.
*Dr. Demetrio Luis Guadagnin é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Departamento de Ecologia.
