ÁGUA: ANTIGA CRISE ANUNCIADA E ESTELIONATO ELEITORAL NO RJ E SP

Sérgio Ricardo Lima
24 de janeiro às 05:28

Durante os últimos desgovernos do estado do Rio de Janeiro, por 
diversas vezes os movimentos sociais e pesquisadores alertaram 
inclusive através da imprensa (infelizmente, sem serem ouvidos pelos 
sucessivos governos) sobre a grave vulnerabilidade hídrica da Região 
Metropolitana e da maioria dos municípios fluminenses. Essa situação 
vinha se acentuando e se agravando a olhos nus, ano a ano, e de 
governo em governo, em função da equivocada prioridade dada a um 
modelo de desenvolvimento que tem privilegiado apenas os intere$$es do 
Capital: com isso, foram concedidas ao arrepio das leis um grande 
número de licenças de Outorgas de captação de água sem sequer se levar 
em conta a prévia análise dos impactos sinérgicos e combinados dos 
empreendimentos sobre os mananciais e a capacidade de suporte das 
bacias hidrográficas que, como tem sido visto agora diariamente na 
mídia, encontram-se em sua maioria extremamente impactadas, poluídas.
Para expandir de forma acelerada este padrão de desenvolvimento 
predatório e poluidor se privilegiou a disponibilização prioritária 
das águas para o uso industrial para com isso atender a enorme demanda 
hídrica (e energética) dos mega-empreendimentos industriais e 
imobiliários, muitos dos quais beneficiados por meio dos tenebrosos 
LICENCIAMENTOS AMBIENTAIS “FAST FOOD”, apesar do elevado potencial 
poluidor e do risco ambiental que apresentam.
Por outro lado, faltou aos sucessivos governos interesse real em 
promoverem um processo de diálogo democrático com a população e as 
instituições científicas que, certamente, indicariam um conjunto de 
soluções sustentáveis e com custos viáveis, tais como: a recuperação 
integrada das bacias hidrográficas, a despoluição dos rios (saneamento 
ambiental), o reflorestamento das matas ciliares etc. Infelizmente, as 
propostas alternativas apresentadas pela sociedade civil e setores 
acadêmicos foram literalmente jogadas na lata do lixo pelos 
governantes. Os Comitês de Bacia Hidrográfica foram esvaziados de 
Participação Popular; e, até mesmo a presença dos mov. sociais, 
pescadores artesanais e agricultores familiares nas reuniões destes 
órgãos colegiados, passaram a ser vista e tratada de forma 
autoritária, deseducada, e como um incômodo (houve situações 
vexatórias em que inclusive até a Polícia Militar foi chamada para 
expulsar os mov. sociais e a população da sede de órgãos públicos, 
sendo as comunidades impactadas tratadas como indesejados apesar de 
estarem ali buscando de forma pacífica defender seus Direitos, além 
dos territórios e ecossistemas ameaçados!). Os licenciamentos “FAST 
FOOD” desmoralizaram o papel institucional dos Órgãos Ambientais 
transformados em balcão de negócios; servidores públicos concursados 
sofreram assédio moral no trabalho para liberarem (aprovarem) às 
pressas pareceres técnicos e licenças que beneficiavam poluidores; as 
Audiências Públicas viraram uma fraude e foram manipuladas para 
atender ao intere$$e econômico dos grandes poluidores; em diversos 
casos houve coação, intimidação e ameaças à vida de ecologistas, 
trabalhadores, moradores e pesquisadores que contestavam (ou se 
opunham) a estes licenciamentos obscuros. A “política ambiental” 
adotada transformou a natureza em mercadoria; o resultado é que 
incentivos e isenções fiscais bilionárias foram dadas para atrair 
corporações campeãs de poluição, inclusive transnacionais.
Por isso tudo, não é de espantar que a atual crise hídrica, associada 
à crise energética, já esteja provocando crescentes prejuízos 
econômicos afetando muitos municípios, empresas e o parque industrial 
o que poderá levar ao aumento do desemprego e a perdas expressivas 
(estimada em milhões ou até mesmo milhões de reais ao ano). Já são 
visíveis os prejuízos na qualidade de vida de milhões de pessoas em 
todo o país, em especial as famílias mais pobres que com a atual 
escassez de água e energia ficam mais vulneráveis e expostas à 
poluição e aos problemas sanitários; todos sabemos que nas sociedades 
capitalistas são os mais pobres e os trabalhadores(as) os primeiros a 
serem atingidos e os que, no final, pagam a conta (cara).
Portanto, trata-se de uma crise anunciada há anos, que na prática 
constitui um símbolo ao fracasso do atual modelo de desenvolvimento, 
e, entrará para a História como a consagração da incompetência e 
leniência dos atuais governantes.
Durante a última campanha eleitoral, os governadores reeleitos Pezão 
(RJ) e Alckmin (SP) mentiram descaradamente à população, ao ocultarem 
os riscos de racionamento no sistema de abastecimento público das 
maiores metrópoles do país, e desta forma ludibriaram os eleitores ao 
minimizarem de forma irresponsável – inclusive no horário eleitoral 
“gratuito” – os riscos da crise hídrica presente, e com isso deixaram 
de adotar a tempo medidas preventivas e emergenciais até que se 
consumasse o verdadeiro Estelionato Eleitoral das suas reeleições.
Andre Correa , ex e atual Secretário Estadual do Ambiente, anunciou 
nos últimos dias medidas paliativas e insuficientes, diga-se de 
passagem bastante limitadas, para enfrentar o colapso hídrico 
fluminense, uma vez a maioria da população e do parque industrial é 
dependente quase exclusivo do rio Paraíba do Sul.
Apesar de estar óbvio para tod@s que, no mínimo, esses mesmos 
(des)governos se mostraram bastante descuidados com o interesse 
público, a pergunta que fica – até o momento sem resposta – é quando 
passarão a ouvir as vozes das ruas e as comunidades impactadas?!

http://www1.folha.uol.com.br/especial/2014/crise-da-agua/
Crise da Água – 2014 – Especial – Cotidiano – Folha de S.Paulo
Crise da Água – 2014 – Especial – Cotidiano – Folha de S.Paulo
www1.folha.uol.com.br