O evento contou com a participação de especialistas, assim como de membros da comunidade acadêmica, para debater os desafios climáticos e elaborar estratégias para a gestão de recursos naturais.

No dia 19 de junho de 2024, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) foi palco de mais uma edição do Café Geográfico, organizado pelo Centro Acadêmico de Geografia (Cageo). Com o tema “Enchentes e Eventos Climáticos Extremos no Maranhão e no Mundo”, o evento atraiu um público diversificado, incluindo professores, alunos e especialistas, para discutir a crescente frequência e intensidade dos desastres climáticos.

O evento contou com as contribuições de renomados especialistas, incluindo o Prof. Dr. Ronaldo Rodrigues Araújo e o Prof. Dr. Marcelino Farias Filho, além de Thereza Christina, vice coordenadora nacional do Fonasc.CBH. Também participaram da discussão Felipe Freitas e Igor Amorim, representantes da Sala de Situação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA).

O professor adjunto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em Climatologia Geográfica, Ronaldo Rodrigues Araújo, destacou a crescente intensificação dos eventos naturais. Com sua vasta experiência na área, ele explicou que, com base nas avaliações e análises recentes, esses eventos estão se tornando cada vez mais frequentes e intensos, causando impactos significativos. Isso reforça a necessidade de manter planos de contingência e medidas de salvaguarda constantemente atualizados, pois estratégias elaboradas há dez anos podem não ser mais adequadas para enfrentar os desafios climáticos atuais e futuros. Portanto, é essencial revisar e adaptar regularmente essas estratégias para assegurar sua eficácia frente às mudanças e novos desafios climáticos.

A crescente frequência de eventos antes considerados raros, como tornados no mar, tem chamado a atenção. Recentemente, um fenômeno desse tipo ocorreu em São Luís, algo que muitos acreditavam ser restrito a outras regiões do mundo. Segundo Ronaldo Rodrigues, essas ocorrências são resultados das transformações na atmosfera, impulsionadas por diversos fatores. “Muitos desses eventos estão relacionados à mudança climática e ao aquecimento global. O aquecimento global é inequívoco; não estamos mais falando que vai acontecer, mas de cenários que já estão ocorrendo. E os cenários projetados para o futuro são cada vez piores e mais intensos”, afirmou o professor.

Em seguida, Felipe Freitas e Igor Amorim, da equipe técnica do Centro de Prevenção de Desastres Ambientais (CPDAm) da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), detalharam seu papel essencial no monitoramento e resposta a desastres no Maranhão. Durante o debate, eles explicaram como a secretaria realiza o monitoramento diário das condições hidrometeorológicas do estado, o que permite a implementação de ações preventivas em emergências.

Na ocasião, Igor Amorim apresentou a criação da Sala de Situação em 2012, um projeto desenvolvido no âmbito do Progestão da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Este acordo técnico entre o Estado e a ANA visava estabelecer um sistema de monitoramento hidrológico no Maranhão.
A ANA forneceu estações denominadas PCDS (Plataformas de Coleta de Dados), que foram instaladas em
diversas bacias hidrográficas do estado. A Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) ficou responsável pela operação e manutenção dessas estações, que atualmente somam 47 em todo o Maranhão. Os representantes do Centro de Prevenção também ressaltaram que esse monitoramento é crucial para a realização de previsões hidrológicas precisas, destacando a importância da distribuição estratégica dessas estações para um acompanhamento eficaz das condições hidrometeorológicas.

Além disso, o Prof. Dr. Marcelino Farias Filho detalhou as causas e os efeitos das enchentes, alagamentos e inundações, destacando a importância de uma análise abrangente para entender esses fenômenos complexos. Em sua palestra, ele explicou que para uma compreensão adequada dos eventos hidrológicos é essencial avaliar uma combinação de fatores, incluindo a dinâmica planetária, a geologia local, o histórico de ocupação da área e os aspectos políticos. O professor ressaltou a necessidade de uma abordagem integrada que permita distinguir claramente entre os diferentes tipos de eventos e compreender como cada variável contribui para suas características e impacto.

Marcelino Farias também criticou a influência do contexto político nas intervenções relacionadas à ocupação do solo. Segundo ele, há uma tendência preocupante entre alguns administradores locais de incentivar situações de desastre, como calamidades e secas, para obter mais recursos financeiros. “Existem municípios que buscam decretar situação de calamidade pública. Para quê? Para ganharem recursos fáceis. Em geral, é essa mesma administração ávida por calamidade e que não aplica corretamente os recursos. E é aquela que facilita o processo de ocupação onde não deveria ser ocupado”, afirmou ele.

De acordo com o professor, no Maranhão, é comum observar construções se expandindo à margem de rios e lagos, com bairros avançando para essas áreas vulneráveis. A origem irregular e inadequada dessas ocupações já as torna propensas a desastres naturais, um problema agravado pela falta de regulamentação e intervenção política. Apesar dos esforços para criar leis e instrumentos de gestão que poderiam regular a ocupação e reduzir a vulnerabilidade, frequentemente grupos políticos dificultam a aplicação efetiva dessas normas. Esse cenário revela um ciclo vicioso, onde a ocupação irregular é favorecida e a implementação de medidas legais é obstaculizada, perpetuando a vulnerabilidade das áreas afetadas.

Para concluir sua fala, Marcelino Farias destaca que, com base em sua vasta experiência como conselheiro em diversas áreas, notou um padrão preocupante: a constante mudança de secretários políticos causa descontinuidade e ineficácia nos conselhos e comitês. Ele observa que, com frequência, novos secretários, que não estão familiarizados com as legislações e práticas anteriores, reiniciam os processos, prejudicando o progresso e desmotivando os envolvidos. Esse ciclo de interrupção e falta de continuidade tem gerado crescente desânimo, especialmente em comitês de bacia, onde o esforço prolongado muitas vezes não se traduz em resultados concretos, levando muitos a se sentirem frustrados
e a desistirem após anos de dedicação.

O discurso do professor Marcelino Farias enfatizou a necessidade urgente de uma abordagem integrada e eficaz para a gestão de desastres, ocupação do solo e recursos hídricos. Destaca-se a importância de uma legislação sólida e de uma administração pública proativa, dedicada à prevenção e mitigação dos riscos ambientais. Outrossim, é essencial que haja uma coordenação eficaz entre diferentes setores e níveis de governo para enfrentar esses desafios de maneira sustentável.

DESAFIOS HÍDRICOS E A ATUAÇÃO DO FONASC.CBH

Para encerrar a rodada de palestras, Thereza Christina fez uma apresentação abrangente do Fonasc.CBH para os participantes que ainda não estavam familiarizados com a instituição. Ela detalhou a trajetória da organização, suas principais atividades e a importância vital que desempenha na gestão e preservação das águas do Brasil. A vice coordenadora também destacou a colaboração com parceiros essenciais, fundamentais para a realização de suas iniciativas, e revisou as legislações atuais que orientam o trabalho do Fórum.

Durante a ocasião, Thereza Christina comentou sobre um evento recente realizado em João Pessoa, destacando a eficácia da política de recursos hídricos no estado. Ela relatou que o encontro contou com representantes de diversos comitês do Nordeste, incluindo apenas um do Maranhão: Nonato Moraes, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pindaré. Embora representasse o Fonasc.CBH no Maranhão e fosse membro dos CBHs da região, sua participação foi financiada pela instituição, e não com recursos estaduais. Thereza criticou a falta de preparação do Maranhão para o evento, mencionando a ausência de contribuições significativas e a escassez de representantes. “Estávamos em um evento para
apresentar cenários, mas o Maranhão não levou nada para mostrar, o que acabou refletindo como um verdadeiro vexame,” afirmou.

A vice coordenadora também abordou a relevância da juventude nas políticas públicas e seu papel crucial no futuro, além de destacar o impacto da escassez de água nas crianças. Segundo dados e pesquisas apresentados por ela, até 2040, uma em cada quatro crianças viverá em áreas afetadas por estresse
hídrico. “O estresse hídrico ocorre quando o consumo de água excede a capacidade dos recursos hídricos de se regenerar. Isso impede que a natureza tenha tempo para se recompor,” explicou.

Ademais, Thereza Christina apresentou dados sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes, como inundações, ciclones, doenças transmitidas por roedores, poluição por chumbo, ondas de calor e a escassez de água. Ela também revelou uma pesquisa que demonstra que estudantes em escolas localizadas em áreas sem saneamento adequado apresentam um desempenho acadêmico inferior em comparação com aquelas em instituições com tratamento apropriado de água e esgoto. “Devemos reconhecer a gravidade das mudanças climáticas e agir com urgência para garantir um planeta habitável para as futuras gerações,” disse.

Por fim, Thereza compartilhou a experiência enriquecedora do Comitê Infantojuvenil da Bacia Hidrográfica do Rio Jeniaparana (CIJBHRJ), destacando suas conquistas e objetivos. Ela ressaltou como a capacitação de crianças e adolescentes no comitê tem desenvolvido habilidades propositivas, críticas e participativas entre os jovens. Essa abordagem evidencia que a inclusão ativa dos jovens em todas as esferas de decisão — desde o nível municipal até o nacional — é essencial para fomentar melhorias contínuas e eficazes na gestão dos recursos hídricos, refletindo um modelo positivo de engajamento e impacto.

ENCERRAMENTO DO EVENTO

O evento também contou com a presença dos alunos do Movimento Correnteza, que compartilharam suas iniciativas para valorizar universidades e espaços comunitários. A conclusão do evento foi marcada por uma rodada de perguntas dirigida aos palestrantes, promovendo um debate enriquecedor sobre os desafios impostos pelos eventos climáticos extremos. Esse diálogo ressaltou a importância de adotar uma gestão integrada e eficaz dos recursos naturais como solução essencial para enfrentar esses desafios.

O Café Geográfico reiterou a necessidade de um diálogo contínuo entre a academia, a sociedade e os órgãos governamentais para enfrentar os desafios climáticos presentes e futuros, fortalecendo a colaboração e o entendimento mútuo em prol de soluções eficazes.