FONASC DIVULGA ARTIGO – O fim da água é uma das provas cabais do erro da teoria econômica tradicional
(evidências desconcertantes sobre isso são inúmeras: Artigo publicado em https://www.ecodebate.com.br/2017/02/01/uma-seca-de-seis-anos-artigo-de-roberto-malvezzi-gogo/).
Data: 07/02/2017
Texto: Divulgação
Surreal o ataque da humanidade às florestas, às águas e aos solos. Esses itens são básicos, porém sustentam a vida. A humanidade não vai perecer e desaparecer por falta de carros, aviões, navios, armas, etc., mas por falta de chuva, água e comida. Esses itens são tão básicos que já houve economistas que escreveram essa pérola: “como a agricultura representa 1% do PIB apenas, os EUA não sofrerão nada caso desapareça por completo.” Fizeram a mesma observação sobre o petróleo. Economista acredita na perfeita e infinita substituição dos bens: se faltar comida, comam panelas; se faltar petróleo, use ossos, e por aí vai. O funcionamento completo dos sistemas à nossa volta passam longe do conhecimento dos economistas que matematizaram a realidade numa pseudociência que virou uma peça de ficção. Isso não seria problema se essa peça de ficção não fosse tão venerada e acreditada por aqueles muito poucos que tomam as decisões. Há os que crêem que a humanidade atingiu elevados níveis de bem estar. Na verdade o que fizemos foi causar um elevado nível de destruição da vida, reconhecido pelos paleontólogos como a sexta extinção em massa da vida na Terra, cuja perda de espécies ou de indivíduos de espécies ocorre dezenas de milhares de vezes mais rapidamente que em eras geológicas normais. Dizimamos só nos últimos 40 anos metade de toda a vida desse planeta. Não temos mais 40 anos para dizimar a outra metade. E, já que os economistas gostam de matemática, como tudo é crescimento exponencial, a velocidade de destruição em termos absolutos aumenta desmesuradamente a cada ano que passa.
O fim da água, da estabilidade do clima, e outros problemas sérios que vivenciamos são consequências. A causa é bem simples: obsessão pelo crescimento do PIB, única meta dos governos e empresas que de nada serve para ajudar as pessoas e apenas serve para enriquecer os mais ricos. O crescimento do PIB é baseado numa teoria econômica falsa que acredita em várias hipóteses absurdas e contrárias à realidade e às ciências verdadeiras: (0) o sistema econômico é neutro para a natureza, (1) a natureza é inesgotável, (2) o planeta é um subsistema da economia, (3) a hipótese de total separação entre economia e meio ambiente não compromete nenhuma das conclusões teóricas, (4) o capital produzido pelo homem é um perfeito substituto da natureza e (5) não há qualquer limite ecológico para a economia. O próprio conceito do PIB é uma aberração. A economia pode ser maior que a Terra!!!! Produzir desembestadamente num planeta finito a um ritmo exponencial não causará problema algum para os seres vivos!!!! Dane-se as abelhas.
Todas as vertentes teóricas da Economia possuem axiomas e princípios de conservação baseados na Física clássica de 250 anos atrás, ou seja, a Mecânica. Os economistas são mecanicistas sem saber. A mecânica clássica ou ciência da locomoção cria a idéia estapafúrdia que “sim, eu posso passar um trator da Amazônia, basta dar marcha-ré que nada aconteceu.” Cria outras idéias estúpidas como a economia do descarte imediato dos bens, o desperdício e transformar a Terra inteira numa enorme lixeira de dejetos, muitos deles com níveis de contaminação irreversíveis, como os milhões de produtos químicos que a natureza nunca teve contato, os metais, a queima de combustíveis fósseis, etc. Para os economistas que só pensam em crescimento do PIB uma floresta não tem valor algum em pé. As árvores só tem valor quando derrubadas ao chão. E isso vale até o dia de hoje: a principal consequência desse modelo de pensamento é não observar nenhuma consequência ambiental e social no preço final do produto. A “growthmania” segue inabalada e ainda é sustentada para gerar empregos para população global adicional que cresce todos os anos em números absolutos gigantescos e com um nível de materialismo impensável. Como o objetivo desse sistema é gerar lucros concentrados nas mãos de poucos e não empregos, nunca iremos ter empregos edificantes, apenas escravizantes e sempre em números inferiores aos desejáveis. Essa é a melhor forma de impedir qualquer abandono da idéia estúpida do crescimento do PIB: sempre faltará empregos e sempre haverá pessoas em estado de miséria e de abandono. E sempre precisaremos de políticos salvadores e de políticas econômicas absurdas para sustentar outro absurdo: o crescimento do PIB num planeta finito como a Terra.
Como os serviços naturais do planeta são considerados (erradamente) inalteráveis, inesgotáveis e totalmente substituíveis, o economista não observa estoques, apenas crescimento exponencial de fluxos. O PIB é um fluxo e sua taxa de crescimento exponencial é a única meta no mundo inteiro. Em um ano hoje, por exemplo, produzimos mais bens e serviços que em 100 anos. Como o corolário disso tudo é a destruição da natureza e das bases de sustentação da vida, podemos dizer que em um ano a nossa capacidade de dizimar a vida é 100 ou muitas vezes maior que nos anos anteriores. E será cada vez maior mesmo que a economia global pare de crescer, porque essa destruição depende de estoques que se espalham pela Terra e não dos fluxos. Os estoques não param de crescer nem em recessões.
Essa teoria é tão forte que inventamos as cápsulas de café, que em um ano se fossem enfileiradas dariam a volta na Terra quatro vezes e as empresas produtoras não tem a menor solução para esse lixo e todos usam alegremente. De fato todos alegremente entram na rapinagem da vida na Terra, tamanha a desconexão. Nosso consumo de plásticos e sacolas plásticas atingiu até o Himalaia e hoje os cientistas avisam: em 50 anos os oceanos terão mais plásticos que peixes. Alguém se importa, apesar disso significar o fim do oxigênio na atmosfera? Estamos na última festa da humanidade e nem percebemos. Pelas leis da física moderna deveríamos evitar isso imediatamente e torcer que dá tempo de evitar o precipício, pois nem isso sabemos mais se é possível devido aos atrasos ecológicos, o carro desgovernado da humanidade ainda continuará em movimento em direção ao precipício mesmo que se por um milagre revertêssemos todos os processos delirantes que criamos. Acreditamos que podemos jogar um balde de lama na nossa sala e criar uma máquina para limpar. Não seria mais fácil não jogar o balde de lama na sala ao invés de criar essa máquina? Acreditamos que podemos limpar tudo, mas com mais materiais e energia, ou seja, com mais pressão sobre os ecossistemas. Toda a poluição que geramos não é evitada, gera novas atividades tentativamente despoluidoras, ou seja, aumenta a rota de colisão da economia com a Terra, colisão que não sairemos vencedores. Biocombustível, construções ecossustentáveis, além de ser um embuste, piora o desequilíbrio que causamos. Precisamos desmaterializar a economia em escala global e se não o fizermos, iremos desmaterializar completamente a vida desse planeta. Não há um terceiro caminho: ou reduzimos o nosso impacto, ou iremos desaparecer do planeta. E essa equação tem que ser medida pelo consumo de matéria e energia disponível e o reconhecimento da finitude espacial e ecológica da Terra. Como conseguimos imaginar ser possível adicionar um fluxo de carros, casas, aviões e outras milhões de quinquilharias num planeta finito? A primeira restrição antes da ecológica ou biológica é o espaço, claramente finito, depois vem a restrição dos ecossistemas e sua biodiversidade que precisam ser funcionais, posto que na Terra todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos e seus ecossistemas. Se os chineses tiverem um carro por habitante como nos EUA, hoje tem apenas 40 por 1000 pessoas, mesmo que cada carro seja movido a hidrogênio e milagrosamente sem impacto algum (o que é uma idéia falsa), a Terra seria coberta de automóveis e não sobraria mais nada. Nem a vida. Carro é apenas um item, coloque os outros no seu pensamento e pense profundamente no absurdo que vivemos apenas para gerar trilhões de dólares reciclados nos mercados financeiros onde essas questão são também totalmente ignoradas.
Acreditamos que a Terra irá nos salvar, vivemos a filosofia do “nunca morri”. Eu escrevo esse texto agora, por isso nunca morri. Isso significa que nunca morrerei? O planeta nunca expulsou a humanidade daqui, embora tenhamos chegado no seu último segundo. Isso significa que nunca nos expulsará? Caminhamos celeremente para o fim da vida na Terra e não há nenhum vetor social, econômico, institucional e político que possa impedir isso. Nada mudou nos últimos 200 anos de destruição total dos ecossistemas que encolhem dia a dia. Basta lembrar que as indústrias de produto de beleza dispensáveis utilizam óleo de palma ligado a destruição das últimas florestas tropicais, na Indonésia e muitos intelectuais discutem economia do baixo carbono e não colocam na conta a matéria prima vir do outro lado do planeta através de uma monocultura destruidora e apesar de tudo isso, a empresa está num índice de ações ironicamente chamado de sustentável. Aquela indústria de carpetes que virou benchmark de sustentabilidade, o seu principal diretor já falecido depois de explicar que a produção seria totalmente sustentável apesar da expansão para a China, ouviu a seguinte pergunta de uma audiência atenta: “Why the hell we need carpets? (Por que cargas d´água precisamos de cartepes?)” Os termos economia do meio ambiente, sustentabilidade, mecanismos de desenvolvimento limpo, energia limpa, economia do baixo carbono, precificação dos serviços da natureza e toda essa gosmenta nomenclatura não só não trouxeram nenhuma mudança como só serviram para impedir qualquer mudança possível, um resultado muito pior. A última panaceia hoje é a precificação dos serviços da natureza, como se isso fosse possível – e não é, porque a natureza tem essencialmente apenas valor intrínseco. Mesmo que fosse possível, depois de acharmos milagrosamente o valor da natureza, seria muita ingenuidade achar que isso iria deter o poder econômico das megacorporações amparadas pelos dirigentes políticos de usar a natureza a custo zero. O custo zero que aparece no sistema de preços e a socialização do dano social e ambiental, com ampara jurídico e político do Estado, é o principal sustentáculo dos lucros empresariais. Só um único serviço da Amazônia para ser replicado seria necessário a energia de 50.000 Itaipus. Para obter essa energia toda iríamos precisar da estrutura hídrica da Via Láctea, um exemplo entre vários da importância extremoa e da irreplicabilidade de cada serviço que a natureza nos presta.
