Evento em Curitiba promoveu diálogos estratégicos sobre a preservação ambiental, o papel da juventude e a necessidade de uma governança participativa para mitigar os impactos das mudanças climáticas.

No dia 20 de dezembro de 2024, Curitiba sediou a I Conferência Livre do Meio Ambiente e Emergências Climáticas para o Enfrentamento de Problemas Socioambientais, reunindo especialistas, lideranças e representantes da sociedade civil. O evento, promovido pelo Centro de Estudos, Defesa e Educação Ambiental (CEDEA) com o apoio de mais de 20 entidades parceiras, ocorreu das 9h30 às 18h00, em formato híbrido, com participação presencial na APP-Sindicato e transmissão virtual pela plataforma Zoom.
A programação abrangeu uma diversidade de temas fundamentais, como justiça climática e socioambiental, adaptação a desastres, segurança alimentar/hídrica, preservação dos territórios de mananciais, além de discussões sobre educação ambiental, entre outros. Com uma abordagem colaborativa e inclusiva, a conferência promoveu um debate técnico aprofundado, incentivou reflexões críticas e impulsionou soluções inovadoras diante da emergência climática, estimulando, ao mesmo tempo, a participação ativa da sociedade civil nesses processos.
A participação do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc.CBH) foi marcada por uma contribuição significativa no debate do Eixo Temático 5 – Governança e Educação Ambiental: Participação e Controle Social. João Clímaco, coordenador nacional do Fórum, integrou a discussão ao lado de Laura Jesus e Paulo César Medeiros, do CEDEA. O debate destacou os desafios enfrentados pela educação ambiental e sua importância no contexto atual, além de ressaltar o papel fundamental da sociedade civil na formulação e no acompanhamento da implementação das políticas ambientais.
Também estiveram presentes a vice coordenadora nacional do Fonasc.CBH, Thereza Christina, e o coordenador do Fonasc.CBH na Bahia, Miguel Polino. Ambos desempenharam um papel fundamental nas discussões, fortalecendo a representatividade da sociedade civil e contribuindo com experiências valiosas sobre governança ambiental. Suas intervenções reforçaram o compromisso do Fórum com a promoção de uma gestão integrada e participativa dos recursos naturais.
JUVENTUDE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DESAFIOS E PERSPECTIVAS
No Eixo Temático 5, as discussões revelaram preocupações contundentes sobre o papel da juventude na defesa do meio ambiente. Vitória, da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES), destacou um ponto alarmante: a falta de visão futura entre os estudantes. “Quando começamos a falar sobre a questão ambiental para os estudantes, não há essa perspectiva de futuro”, afirmou, referindo-se ao desinteresse dos jovens em temas ambientais.
Vitória também refletiu sobre o papel da educação ambiental como ferramenta de transformação, mas alertou para um grande obstáculo: a dificuldade de alcançar a juventude nos tempos atuais. “Os nossos profissionais da educação não conseguem mais alcançar essa juventude para o que está acontecendo no estado do Paraná”, lamentou. A educação, que antes era vista como uma ferramenta crucial para despertar a conscientização ambiental, parece estar perdendo sua força diante das pressões políticas e sociais.
Em sua análise, a representante da UPES conclui que a responsabilidade não recai apenas sobre os educadores, mas é um processo que envolve todos os setores da sociedade. A marginalização dos professores e estudantes, a busca pela ascensão rápida e pelo enriquecimento sem considerar os impactos ambientais são fenômenos que merecem uma reflexão profunda. A juventude, que antes estava na vanguarda das lutas sociais, agora se vê desorientada, em busca de um futuro que muitas vezes ignora as questões ambientais que, a longo prazo, serão determinantes para a sua sobrevivência.
João Clímaco, ambientalista, sociólogo e coordenador nacional do Fonasc.CBH, trouxe à tona uma reflexão importante sobre o papel da educação ambiental na reconstrução do que ele chamou de rompimento do contrato social. Para ele, o contrato social é composto pelas normas/acordos estabelecidos pela sociedade para garantir uma convivência justa e equilibrada. No entanto, ele observou que há setores da sociedade, principalmente aqueles que buscam o lucro a qualquer custo, que desconsideram essas normas e seguem se beneficiando à custa do bem-estar coletivo, sem se importar com as consequências.
“A gente tem que ver qual o papel da educação ambiental para enfrentar o rompimento do contrato social”. João Clímaco
O coordenador nacional do Fonasc.CHB também destacou que esse desequilíbrio no contrato social é refletido em uma disputa de hegemonia dentro da própria sociedade civil, onde diferentes forças e interesses acabam enfraquecendo as lutas coletivas. Ele questionou como será possível recompor esse contrato social de maneira mais justa e equitativa, enfrentando os desafios estruturais que impedem uma verdadeira mudança. “Quais desafios temos que enfrentar para recompor esse contrato social de maneira mais justa?”, indagou, enfatizando a necessidade de uma abordagem mais profunda e integrada.
Ademais, o sociólogo fez uma reflexão sobre o papel da juventude nas mudanças sociais, destacando a importância de valorizar a atuação das novas gerações. Ele se referiu a Vitória, a jovem da UPES, e afirmou: “A gente tem que homenagear, quando vejo uma juventude dessas, a gente tem que dar muito valor”. Para ele, a juventude é a verdadeira ruptura, a chave para a reconstrução do contrato social, reconhecendo o papel essencial dos jovens na transformação das normas e na busca por um futuro mais sustentável.
Entretanto, João Clímaco também alertou para a desagregação das leis e normas no país, o que tem prejudicado o andamento das mudanças necessárias. Além disso, ele acredita que o conceito de educação ambiental precisa ser expandido e adaptado à realidade atual, uma vez que, isoladamente, não será capaz de solucionar os problemas estruturais que afetam a sociedade. “O que chama de educação ambiental, para mim, seria uma coisa mais ampla numa realidade como essa”, disse.
Na ocasião, a vice coordenadora nacional do Fonasc.CBH, Thereza Christina, destacou o papel crucial da instituição na educação ambiental, especialmente no Comitê Infantojuvenil da Bacia Hidrográfica do Rio Jeniparana. Prestes a completar 14 anos em 2025, o comitê tem sido fundamental na formação de crianças e adolescentes, promovendo seu protagonismo na gestão das águas e, consequentemente, fortalecendo o compromisso com a preservação e o uso sustentável dos recursos hídricos. Outrossim, Thereza enfatizou que o Fórum também integra a Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental do Maranhão (CIEA-MA), ampliando suas ações no campo da conscientização e educação socioambiental.
Em entrevista, Thereza Christina destacou a importância de envolver os jovens nessas discussões, pois eles são fundamentais para o futuro da preservação ambiental. Ao integrá-los ao processo, não apenas se fortalece a conscientização e o compromisso com as questões ambientais, mas também se assegura que as novas gerações estarão aptas a enfrentar os desafios climáticos de maneira colaborativa e eficaz.
UNIÃO, AÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
O evento culminou com um chamamento à ação coletiva, destacando a necessidade de um esforço conjunto entre sociedade civil, governos e setor privado para mitigar os impactos das mudanças climáticas. A I Conferência Livre do Meio Ambiente e Emergências Climáticas consolidou-se como um marco na agenda ambiental brasileira, reafirmando o papel central da educação, da governança e da participação social na construção de um futuro mais sustentável.
