{"id":20350,"date":"2018-12-19T18:31:32","date_gmt":"2018-12-19T18:31:32","guid":{"rendered":"http:\/\/fonasc-cbh.org.br\/?p=20350"},"modified":"2018-12-19T18:31:32","modified_gmt":"2018-12-19T18:31:32","slug":"internacional-as-licoes-para-sobreviver-a-seca-viajam-do-brasil-a-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/?p=20350","title":{"rendered":"INTERNACIONAL &#8211; AS LI\u00c7\u00d5ES PARA SOBREVIVER \u00c0 SECA VIAJAM DO BRASIL \u00c0 \u00c1FRICA"},"content":{"rendered":"<div>\n<div><span style=\"font-size: 1.17em;\">INTERNACIONAL &#8211; AS LI\u00c7\u00d5ES PARA SOBREVIVER \u00c0 SECA VIAJAM DO BRASIL \u00c0 \u00c1FRICA<\/span><\/div>\n<div>\n<h3 id=\"articulo-titulo\">Inspirada em projeto brasileiro, Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura constr\u00f3i cisternas em pa\u00edses africanos e come\u00e7a a mudar a realidade local<\/h3>\n<\/div>\n<h4>Texto: de Marina Rossi do El Pa\u00eds<br \/>\nData: 19\/12\/2018<\/h4>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desenhando com o dedo indicador no ch\u00e3o de areia fofa e alaranjada, o agricultor brasileiro Sueldo Vicente de Moraes tentava explicar como funciona o sistema de tecnologia simples constru\u00eddo em sua comunidade para reutilizar \u00e1gua, em Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte. Ao redor dele, os olhos atentos de agricultores e algumas autoridades da comunidade rural de Tiamm\u00e9ne Pass, a cerca de 260 quil\u00f4metros de Dacar, capital do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/senegal\" target=\"_blank\">Senegal<\/a>, prestavam aten\u00e7\u00e3o na explica\u00e7\u00e3o. \u201cAs minhocas consomem os res\u00edduos nesta parte da decomposi\u00e7\u00e3o\u201d, apontava Moraes. \u201cNo final do processo, a \u00e1gua chega limpa para irrigar as plantas\u201d, finalizou o brasileiro de 46 anos a uma dezena de senegaleses sentados no p\u00e9 de uma estrutura imensa, usada para captar e bombear \u00e1gua do solo para as fam\u00edlias locais.<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\">\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">A alguns quil\u00f4metros dali, na pequena aldeia de Ndiana Peulh, essa tecnologia de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua n\u00e3o existia. Mas a aus\u00eancia dela hoje fez surgir outra forma de abastecimento. Sem rede el\u00e9trica e tampouco \u00e1gua encanada, os casebres de taipa com teto de sap\u00e9 ficaram ainda menores depois que a grande cisterna, ainda branquinha, fora instalada. Constru\u00edda em mar\u00e7o deste ano, o reservat\u00f3rio \u00e9 um dos 19 que existem hoje no pa\u00eds\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/africa\" target=\"_blank\">africano<\/a>\u00a0e faz parte da etapa piloto do projeto intitulado Um Milh\u00e3o de Cisternas para o Sahel. Financiada pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO), em parceria com o governo italiano, a iniciativa \u00e9 totalmente inspirada no projeto brasileiro de mesmo nome, desenvolvido no in\u00edcio dos anos 2000 no semi\u00e1rido e que ganhou reconhecimento internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">A inspira\u00e7\u00e3o na vers\u00e3o brasileira da iniciativa n\u00e3o foi s\u00f3 devido ao seu \u00eaxito. O Sahel, faixa que vai de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/04\/ciencia\/1522854864_966199.html\" target=\"_blank\">leste<\/a>\u00a0a oeste do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/23\/actualidad\/1527080406_444155.html\" target=\"_blank\">continente africano<\/a>, entre o deserto do Saara e a savana do Sud\u00e3o, \u00e9 uma \u00e1rea\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098.html\">com clima parecido com o do semi\u00e1rido brasileiro<\/a>, embora algumas regi\u00f5es sejam ainda mais secas que no Brasil. Por causa das suas similaridades, nesta etapa do projeto, 18 agricultores e agricultoras brasileiros foram visitar algumas comunidades senegalesas onde os reservat\u00f3rios foram constru\u00eddos para trocar experi\u00eancias como a de Sueldo Moraes, numa esp\u00e9cie de interc\u00e2mbio. \u201cO mundo aprendeu muito com voc\u00eas\u201d, afirmou Coumba Sow, coordenadora do time de resili\u00eancia para a \u00c1frica Ocidental da FAO. \u201cEu at\u00e9 poderia falar aos agricultores daqui do Senegal sobre a import\u00e2ncia desse projeto, mas \u00e9 ainda melhor quando os pr\u00f3prios atores dessa transforma\u00e7\u00e3o falam sobre ela\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Os agricultores brasileiros s\u00e3o pessoas simples no trato e cheias de conhecimento. Muitos deles nunca haviam sa\u00eddo sequer dos Estados onde vivem. Recolhem as sementes de melancia do prato do caf\u00e9 da manh\u00e3 do hotel para plantar no Brasil e pedem ao l\u00edder governamental, que ofereceu um jantar certa noite, para doar a comida que sobrou a uma das comunidades visitadas. Vieram dos dez Estados englobados pelo semi\u00e1rido brasileiro \u2013 os nove do Nordeste e Minas Gerais -, por meio da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.asabrasil.org.br\/\" target=\"_blank\">Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido (ASA)<\/a>, que \u00e9 composta por mais de 3.000 entidades. Passaram sete dias viajando em um pequeno \u00f4nibus de 25 lugares pelo interior do Senegal, acompanhados pela reportagem do EL PA\u00cdS, t\u00e9cnicos da ASA e um representante da FAO. Embora acostumados com a aridez e a viv\u00eancia em locais quase sempre esquecidos pelo poder p\u00fablico, sentiram o calor, a secura e a realidade na pele. \u201cH\u00e1 60 anos eu fui criado sem saber ler e nem escrever\u201d, disse, emocionado, o senhor Carlos Soares de Menezes, 65, de Monte Alegre, em Sergipe, ao final de um dia inteiro percorrendo aldeias no interior do Senegal. \u201cE ainda hoje tem gente assim. Isso \u00e9 triste demais, achei que n\u00e3o existisse mais gente assim\u201d, afirmou, ap\u00f3s conhecer regi\u00f5es onde n\u00e3o h\u00e1 escolas por perto. As crian\u00e7as e especialmente as mulheres locais s\u00e3o analfabetas. \u201cA gente reclama de barriga cheia no Brasil\u201d, concluiu o senhor Sebasti\u00e3o Rodrigues Damasceno, 63, vindo do munic\u00edpio alagoano de Santana do Ipanema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Dahra, a 260 quil\u00f4metros de Dacar, um dos munic\u00edpios onde h\u00e1 aldeias que receberam a cisterna, est\u00e1 quase na fronteira com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/08\/internacional\/1515432276_779261.html\" target=\"_blank\">o deserto do Saara<\/a>. Chove, em m\u00e9dia, 250ml por ano, menos da metade da m\u00e9dia de 500ml registrada no semi\u00e1rido brasileiro. O vento vindo do deserto faz a areia grudar na superf\u00edcie da pele melada pelo suor provocado por um calor de quase 40 graus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">\u00c9 uma cidade miser\u00e1vel, de pouco mais de 30.000 habitantes. O asfalto passa somente na via principal e o lixo nas ruas \u00e9 parte da paisagem das vias de terra. Os animais \u2013 galinhas, principalmente, al\u00e9m de cabras e jumentos com as costelas \u00e0 mostra \u2013 dividem o espa\u00e7o com crian\u00e7as vestidas com camisas de clubes de futebol europeu, que est\u00e3o sempre com as duas m\u00e3os juntas, em forma de concha, pedindo algum dinheiro. De maneira geral, as \u00fanicas constru\u00e7\u00f5es finalizadas s\u00e3o as mesquitas, que est\u00e3o espalhadas por todo o pa\u00eds de maioria mu\u00e7ulmana, na mesma medida em que as igrejas evang\u00e9licas est\u00e3o pelo Brasil. O cinza do reboco inacabado das casas de Dahra e o laranja de suas ruas de terra fazem contraste com as vestimentas das mulheres, que se cobrem de panos coloridos e estampados dos p\u00e9s \u00e0s cabe\u00e7as.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|despiece\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div>\n<header>\n<h4>O SAHEL<\/h4>\n<\/header>\n<div>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 uma faixa formada por munic\u00edpios que est\u00e3o em dez pa\u00edses da \u00c1frica, da costa oeste \u00e0 leste: Burkina Faso, Chade, G\u00e2mbia, Eritreia, Guin\u00e9 Bissau, Mali, Maurit\u00e2nia, N\u00edger, Senegal e Sud\u00e3o. Desses, Senegal, N\u00edger e G\u00e2mbia fazem parte do projeto piloto de constru\u00e7\u00e3o de cisternas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No sentido norte-sul, o Sahel fica entre o deserto do Saara a Savana do Sud\u00e3o, constituindo uma zona de transi\u00e7\u00e3o entre a aridez do deserto e as terras f\u00e9rteis da savana.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A quantidade de chuvas varia entre 150 e 300 mil\u00edmetros por ano, dependendo do local, e 80% da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o depende da agricultura para sobreviver.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">S\u00e3o elas, inclusive, o p\u00fablico alvo do programa Um Milh\u00e3o de Cisternas no Sahel \u2013 nome meramente ilustrativo, como membros da FAO explicaram, j\u00e1 que esse n\u00famero n\u00e3o chega perto da demanda real de toda a regi\u00e3o. O foco nas mulheres \u00e9 por uma raz\u00e3o pr\u00e1tica: culturalmente,\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/elpais\/2014\/03\/20\/planeta_futuro\/1395320459_604628.html\" target=\"_blank\">s\u00e3o elas as respons\u00e1veis por buscar \u00e1gua<\/a>\u00a0para a fam\u00edlia, num ato herc\u00faleo que forma as hist\u00f3ricas imagens de mulheres com baldes na cabe\u00e7a, seja na \u00c1frica, seja no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Antes da constru\u00e7\u00e3o do reservat\u00f3rio, as mulheres da aldeia de Ndiana Peulh precisavam caminhar cinco quil\u00f4metros, dia sim, dia n\u00e3o, atr\u00e1s de \u00e1gua. \u201cFic\u00e1vamos muito cansadas\u201d, disse uma delas, com voz baixa, no dialeto local, o pulaar, traduzido para o franc\u00eas \u2013 a l\u00edngua oficial do Senegal, embora a maioria fale wolof &#8211; e, em seguida, ao portugu\u00eas. \u201cA cisterna n\u00e3o s\u00f3 resolveu o problema da \u00e1gua, como tamb\u00e9m nos empoderou\u201d, completou Elis\u00e2ngela Ribeiro de Aquino, 46, de Riacho dos Machados, em Minas Gerais. \u201cSabemos o que \u00e9 andar com uma lata d\u2019\u00e1gua na cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|despiece\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div>\n<header>\n<h4>O SEMI\u00c1RIDO<\/h4>\n<\/header>\n<div>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 formado por mais de 1 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, englobando munic\u00edpios dos nove Estados do Nordeste e uma parte de Minas Gerais. Tem cerca de 24 milh\u00f5es de habitantes, entre a popula\u00e7\u00e3o rural e urbana.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para um munic\u00edpio ser considerado semi\u00e1rido, \u00e9 levada em conta a quantidade de chuva que cai ali, sua distribui\u00e7\u00e3o ao longo do ano, a evapora\u00e7\u00e3o e a aridez do solo. O Cear\u00e1 \u00e9 o \u00fanico Estado que tem quase 100% dos seus munic\u00edpios considerados semi\u00e1ridos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A estimativa da ASA \u00e9 que as 1,3 milh\u00e3o de cisternas constru\u00eddas em todo o semi\u00e1rido brasileiro atendam a cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas. Apesar da grande abrang\u00eancia, calcula-se que ainda exista um d\u00e9ficit de 300.000 cisternas para consumo humano e 600.000 tecnologias de \u00e1gua para produ\u00e7\u00e3o, como a constru\u00e7\u00e3o de barragens e po\u00e7os, para suprir a necessidade de \u00e1gua na regi\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Nesse sentido, a aldeia Keur Bara Tambedou, na regi\u00e3o da cidade de Kaolack, a 200 quil\u00f4metros de Dacar, j\u00e1 est\u00e1 um passo \u00e0 frente. Ali, uma associa\u00e7\u00e3o de agricultoras formada por 73 mulheres que trabalham na terra mostrava na pr\u00e1tica o que significa esse nova for\u00e7a. Guil\u00e9 Man\u00e9, de 39 anos, uma mulher alta e esbelta, que carregava o filho nas costas amarrado por um pano colorido, \u00e9 a l\u00edder da associa\u00e7\u00e3o e explicou \u00e0 comitiva de brasileiros os impactos positivos causados pela cisterna. \u201cAntes, o que produz\u00edamos era praticamente usado para pagar a \u00e1gua. Agora com a cisterna, agradecemos a Deus\u201d, disse. \u201cA cisterna nos deixou mais unidas tamb\u00e9m\u201d. Elas se dividem em pequenos grupos que se revezam entre o trabalho no campo e a venda dos alimentos produzidos. E garantem que o que ganham com a produ\u00e7\u00e3o na terra fica somente para elas e n\u00e3o \u00e9 dividido com os maridos, que podem se casar legalmente com at\u00e9 quatro mulheres ao mesmo tempo, segundo a legisla\u00e7\u00e3o senegalesa.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Troca de sementes<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Sobre um tapete colorido estendido no ch\u00e3o de terra, a agricultora brasileira Maria Silvanete Lermen, 43, do munic\u00edpio pernambucano de Ex\u00fa, descrevia o presente que trouxera do Nordeste do Brasil para as senegalesas. \u201cAssim como muito do que temos no Brasil veio da \u00c1frica, trouxemos de volta algumas coisas para voc\u00eas\u201d, dizia. \u201cEsta batata doce j\u00e1 est\u00e1 brotando. Se plantar no inverno, nasce rapidinho. E a mamona, do fruto fazemos \u00f3leo para hidratar a pele, e plantada, ela serve para adubar a terra. Plantem longe dos animais, porque ela \u00e9 venenosa\u201d, explicava para as mulheres de Keur Bara Tambedou. O armazenamento de sementes, algo que n\u00e3o \u00e9 praticado ali, \u00e9 uma das formas de garantir a safra mesmo em momentos de seca, explicam os brasileiros. \u201cO armazenamento das sementes nos deixam menos dependentes\u201d, disse a mineira Elis\u00e2ngela de Aquino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Esse conhecimento sobre o armazenamento de sementes, assim como a constru\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios, faz parte de um leque de a\u00e7\u00f5es contidas dentro da pol\u00edtica desenvolvida para sobreviver \u00e0 seca no Brasil. &#8220;A cisterna nunca chega sozinha a uma comunidade&#8221;, explica\u00a0C\u00edcero F\u00e9lix dos Santos, da coordena\u00e7\u00e3o nacional da ASA. &#8220;Na verdade, ela \u00e9 o \u00faltimo componente. Primeiro, existe um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o, de sensibiliza\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o de pedreiros para a constru\u00e7\u00e3o&#8230; Isso tudo leva at\u00e9 um ano para ser finalizado\u201d. Iniciada no final do ano 2000, ainda sob a gest\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/fernando_henrique_cardoso\">ex-presidente Fernando Henrique Cardoso<\/a>, a iniciativa da constru\u00e7\u00e3o de cisternas partiu da sociedade civil organizada, que levou a proposta at\u00e9 Bras\u00edlia. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, as pol\u00edticas desenvolvidas para o semi\u00e1rido eram chamadas pelos governos de pol\u00edtica de combate \u00e0 seca\u201d, diz Rafael Neves, coordenador do programa Um Milh\u00e3o de Cisternas. \u201cMas n\u00e3o se combate a natureza. Se adapta \u00e0 ela. Por isso, em uma regi\u00e3o onde chove s\u00f3 de tr\u00eas a quatro meses, a principal estrat\u00e9gia [para sobreviver] \u00e9 estocar \u00e1gua para beber, para plantar e guardar sementes nativas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">O registro da primeira cisterna constru\u00edda no Brasil partiu do pedreiro Manuel Apol\u00f4nio de Carvalho, conhecido como Nel. Depois de passar uma temporada vivendo em S\u00e3o Paulo trabalhando na constru\u00e7\u00e3o de piscinas, ele voltou \u00e0 cidade de origem, no interior de Sergipe, com a ideia na cabe\u00e7a: construir um reservat\u00f3rio para armazenar \u00e1gua para os tempos de estiagem. A partir da cisterna de Nel, entidades se organizaram e bateram na porta do ministro do Meio Ambiente na \u00e9poca, Jos\u00e9 Sarney Filho. A fase piloto foi implementada no \u00faltimo ano da gest\u00e3o de FHC, em 2002, e virou pol\u00edtica p\u00fablica, sob o guarda-chuva do programa Fome Zero, na gest\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/luiz_inacio_da_silva\">ex-presidente Lula<\/a>. \u201cMas houve um trabalho de convencimento antes\u201d, pondera C\u00edcero dos Santos.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div>\n<figure itemprop=\"image\" itemscope=\"\" itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/12\/04\/internacional\/1543931349_443986_1543951699_sumario_normal.jpg\" alt=\"Cisterna em comunidade rural do Senegal, uma das primeiras da fase piloto do projeto. \" width=\"980\" height=\"735\" \/><figcaption itemprop=\"caption\">Cisterna em comunidade rural do Senegal, uma das primeiras da fase piloto do projeto.\u00a0M. R.<\/figcaption><\/figure>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Passados alguns anos da constru\u00e7\u00e3o das primeiras cisternas brasileiras, Santos lembra que a realidade do semi\u00e1rido come\u00e7ou a se transformar. \u201cA nossa conquista foi tirar a lata d\u2019\u00e1gua da cabe\u00e7a das mulheres\u201d, diz. &#8220;Antes, o primeiro presente que uma crian\u00e7a ganhava, l\u00e1 pelos cinco anos, era uma latinha dessas de tinta, para colocar na cabe\u00e7a. Os meninos carregam no ombro, pendurada por um pau, porque os homens n\u00e3o t\u00eam tanto equil\u00edbrio quanto as mulheres\u201d, explica ele.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">O ovo de Colombo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/jose_graziano_da_silva\/a\/\">Jos\u00e9 Graziano, ex-ministro extraordin\u00e1rio de Seguran\u00e7a Alimentar e Combate \u00e0 Fome<\/a>\u00a0do Governo Lula, foi quem encabe\u00e7ou as a\u00e7\u00f5es do projeto brasileiro. Hoje, \u00e0 frente da dire\u00e7\u00e3o-geral da FAO, foi ele quem teve a ideia de levar as a\u00e7\u00f5es desenvolvidas no Brasil para a \u00c1frica. &#8220;Estive pela primeira vez no Senegal em 2013, e perguntei por que n\u00e3o havia cisternas l\u00e1&#8221;, disse, por telefone, de Roma, onde fica a sede da FAO. Ele conta que enfrentou dificuldades para convencer as autoridades sobre a viabilidade de sua ideia. &#8220;No in\u00edcio, houve uma certa descren\u00e7a, assim como houve com o projeto um Milh\u00e3o de Cisternas no Brasil&#8221;, diz. &#8220;As pessoas sempre pensam que a solu\u00e7\u00e3o dos problemas imediatos depende de coisas sofisticadas e muito caras. Quando voc\u00ea aparece com uma solu\u00e7\u00e3o simples e inovadora, \u00e9 como Colombo, que p\u00f4s o ovo em p\u00e9&#8221;.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div>\n<figure itemprop=\"image\" itemscope=\"\" itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/12\/04\/internacional\/1543931349_443986_1543951874_sumario_normal.jpg\" alt=\"Mulher caminha com balde d'\u00e1gua na cabe\u00e7a em Dahra, Senegal. \" width=\"360\" height=\"480\" \/><figcaption itemprop=\"caption\">Mulher caminha com balde d&#8217;\u00e1gua na cabe\u00e7a em Dahra, Senegal.\u00a0M. R.<\/figcaption><\/figure>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Coumba Sow, que trabalhava com Graziano em Roma na \u00e9poca, e hoje atua na FAO a partir de Dacar, era uma das &#8220;descrentes&#8221;. &#8220;Quando se falava no programa Fome Zero e na constru\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de cisternas, parecia surreal&#8221;, lembra ela. &#8220;Mas fomos at\u00e9 o Brasil e vimos que era poss\u00edvel&#8221;. Hoje, as cerca de 1,3 milh\u00e3o de cisternas fazem parte da paisagem quando se anda pelo semi\u00e1rido brasileiro. E o projeto africano pretende, aos poucos, fazer o mesmo pela geografia do continente. Graziano explica que o objetivo para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos \u00e9 de levar reservat\u00f3rios a 10.000 mulheres do Sahel. &#8220;A cisterna n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a \u00e1gua pot\u00e1vel, \u00e9 a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e da habita\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o conceito que levamos do Brasil para a \u00c1frica, com bons resultados&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">O efeito positivo da etapa piloto do projeto africano pretende sensibilizar investidores e o Governo para tornar a constru\u00e7\u00e3o de cisternas uma pol\u00edtica p\u00fablica, assim como ocorreu no Brasil. Com 15,8 milh\u00f5es de habitantes no Senegal, e mais da metade da popula\u00e7\u00e3o vivendo em \u00e1reas rurais, o programa ter\u00e1 de ser ainda mais ambicioso que a vers\u00e3o brasileira, al\u00e9m de levar em conta algumas adapta\u00e7\u00f5es. De maneira geral,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/03\/internacional\/1533287402_271672.html\">o continente africano est\u00e1 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s do Brasil em termos de desenvolvimento.<\/a>\u00a0Um exemplo \u00e9 a falta de rede el\u00e9trica e o telhado de sap\u00e9 nas casas da zona rural visitadas pela reportagem. Como o telhado \u00e9 parte fundamental para a capta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua da chuva que ser\u00e1 armazenada, foi preciso construir uma esp\u00e9cie de telhado grande de alum\u00ednio, de 60 metros quadrados, para captar a \u00e1gua. A chuva, cai somente ao longo de tr\u00eas meses no pa\u00eds, que \u00e9 dividido em duas esta\u00e7\u00f5es: quente e seca e quente e chuvosa, sendo essa entre julho e outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">Essa escassez de chuvas no Senegal \u00e9 ainda maior que no Brasil. Ainda assim, a seca brasileira, tema praticamente esquecido pelos candidatos \u00e0 presid\u00eancia durante a elei\u00e7\u00e3o deste ano, \u00e9 uma quest\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 totalmente sanada. Durante o pleito, o presidente eleito Jair Bolsonaro afirmou que pretendia importar a tecnologia de Israel para dessalinizar a \u00e1gua do mar e garantir a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no Brasil. Mas para C\u00edcero dos Santos, da ASA, a proposta mostra \u201cdesconhecimento\u201d do presidente sobre a regi\u00e3o. \u201cTemos o semi\u00e1rido mais populoso e chuvoso do planeta.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/01\/politica\/1470076598_000832.html\" target=\"_blank\">N\u00e3o falta \u00e1gua, faltam pol\u00edticas p\u00fablicas<\/a>\u00a0que garantam capta\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o das \u00e1guas da chuva\u201d, diz. \u201cIsso sim resolve o problema da escassez\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" dir=\"ltr\">\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>INTERNACIONAL &#8211; AS LI\u00c7\u00d5ES PARA SOBREVIVER \u00c0 SECA VIAJAM DO BRASIL \u00c0 \u00c1FRICA Inspirada em projeto brasileiro, Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,36,8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20350"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20350"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20352,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20350\/revisions\/20352"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}