{"id":14120,"date":"2015-10-18T16:24:46","date_gmt":"2015-10-18T16:24:46","guid":{"rendered":"http:\/\/fonasc-cbh.org.br\/?p=14120"},"modified":"2015-10-18T18:44:49","modified_gmt":"2015-10-18T18:44:49","slug":"fonasc-pantanal-entrevista-%e2%80%9co-setor-eletrico-manda-na-gestao-de-recursos-hidricos-no-brasil%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/?p=14120","title":{"rendered":"FONASC &#8211; PANTANAL DIVULGA &#8211; ENTREVISTA &#8211; \u201cO setor el\u00e9trico manda na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos no Brasil\u201d."},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>\u201cO setor el\u00e9trico manda na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos no Brasil\u201d.<\/h2>\n<p>ENTREVISTA- Prfa . Debora Calheiros*<\/p>\n<dl>\n<dd><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Debora-Calheiros-por-Bruno-Cidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Debora-Calheiros-por-Bruno-Cidade-1024x683.jpg\" alt=\"Debora Calheiros por Bruno Cidade\" width=\"614\" height=\"410\" \/><\/a><\/dd>\n<\/dl>\n<div>\n<div id=\"attachment_42753\">\n<p>A pesquisadora D\u00e9bora Calheiros, da Embrapa Pantanal\/UFMT, luta h\u00e1 anos contra a prolifera\u00e7\u00e3o das pequenas centrais el\u00e9tricas no Pantanal. Foto: Bruno Cidade<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Movimentos-sociais-rio-Paraguai-por-Fabio-Pellegrini.jpg\"><br \/>\n<\/a>Ao entardecer do dia 29 de setembro de 2002, pescadores das comunidades ribeirinhas do rio Jauru, no oeste mato-grossense, vivenciaram um fato assustador. Ap\u00f3s um dia rotineiro de pesca, o manancial passou a secar rapidamente. Canoas e barcos encalharam. Peixes se debatiam em pequenos alagados no leito do rio e em ba\u00edas pr\u00f3ximas. Os pescadores, incr\u00e9dulos, n\u00e3o entendiam o que estava ocorrendo. O cen\u00e1rio apocal\u00edptico era resultado do fechamento das comportas da Usina Hidrel\u00e9trica (UHE) Jauru, para o enchimento de seu reservat\u00f3rio, que durou quase tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Os relatos de pescadores sobre essa feita, al\u00e9m de depoimentos de cientistas alertando sobre o risco da implanta\u00e7\u00e3o de empreendimentos hidrel\u00e9tricos de m\u00e9dio e pequeno porte na Bacia do Alto Paraguai (BAP), est\u00e3o no document\u00e1rio\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9mlU2IYrJ6c\" target=\"_blank\">\u201cO Dia em que o Rio Secou\u201d, dispon\u00edvel na internet<\/a>.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo foi produzido por um grupo de pesquisadores e movimentos sociais que mobilizaram comunidades tradicionais da Bacia Hidrogr\u00e1fica do Alto Paraguai (BAP), com o objetivo de alertar a sociedade para o risco da instala\u00e7\u00e3o desses empreendimentos na regi\u00e3o Peri-pantaneira, o planalto que circunda a plan\u00edcie pantaneira, onde est\u00e3o localizadas as nascentes dos rios.<\/p>\n<p>Uma das mais atuantes figuras nesse contexto \u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/equipe\/-\/empregado\/255354\/debora-fernandes-calheiros\" target=\"_blank\">bi\u00f3loga D\u00e9bora Calheiros<\/a>. Calheiros \u00e9 pesquisadora da Embrapa Pantanal cedida \u00e0 Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e membro do Grupo de Acompanhamento da Elabora\u00e7\u00e3o do Plano de Recursos H\u00eddricos da Regi\u00e3o Hidrogr\u00e1fica do Paraguai (GAP).<\/p>\n<p>((o))eco conversou com ela\u00a0logo ap\u00f3s reuni\u00e3o do Grupo de Acompanhamento da Elabora\u00e7\u00e3o do Plano de Recursos H\u00eddricos da Regi\u00e3o Hidrogr\u00e1fica do Paraguaiocorrida no Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso Sul (Imasul).<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Qual \u00e9 a atual situa\u00e7\u00e3o dos empreendimentos hidrel\u00e9tricos na Bacia do Alto Paraguai?<\/strong><\/p>\n<p>Quando comecei a trabalhar com essa quest\u00e3o, em 2008, havia uma previs\u00e3o de 116 empreendimentos geradores de energia hidrel\u00e9trica a serem instalados, e cerca de 22 em funcionamento. Agora s\u00e3o 162 previstos e 44 instalados na Bacia do Alto Paraguai, sendo 8 de grande\/m\u00e9dio porte (UHEs) e 36 Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas (PCHs), que j\u00e1 representam 70% do potencial total da bacia. Mas o setor el\u00e9trico ainda quer mais, quer os 100%, com mais 118 barragens, sendo 3 UHEs e 115 PCHs.<\/p>\n<p>O setor el\u00e9trico n\u00e3o tem limites, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s chamadas Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas no Brasil. \u00c9 um dos investimentos que mais geram lucros. As PCHs t\u00eam um processo de licenciamento mais f\u00e1cil, mais simplificado, com atrativos financeiros muito fortes. \u00c9 por isso que est\u00e3o pipocando por a\u00ed, sem qualquer controle ou planejamento do impacto conjunto e sin\u00e9rgico de todos os barramentos em n\u00edvel de bacia, como determina a legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Qual \u00e9 o seu hist\u00f3rico nessa luta?<\/strong><\/p>\n<p>Estudo rios h\u00e1 30 anos, no in\u00edcio em S\u00e3o Paulo, meu estado de origem, onde pude acompanhar a grave e cont\u00ednua degrada\u00e7\u00e3o dos mananciais e o descaso do poder p\u00fablico. Sou empregada p\u00fablica, especialista em impactos ambientais de barragens em rios. Fiz mestrado na Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos, da Universidade de S\u00e3o Paulo (EESC\/USP), um dos grupos de pesquisa que \u00e9 refer\u00eancia nacional sobre o tema, e fui aluna do professor J.G. Tundisi, um dos maiores especialistas deste mesmo tema no pa\u00eds e no mundo. Atuo tamb\u00e9m no impacto de mudan\u00e7as de uso do solo, polui\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o por pesticidas em ambientes aqu\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Fui trabalhar no Pantanal h\u00e1 25 anos, por op\u00e7\u00e3o, com o objetivo ing\u00eanuo de achar que a ci\u00eancia teria papel importante em proporcionar a conserva\u00e7\u00e3o dos rios da Bacia do Alto Paraguai, formadora do Pantanal, para que os mesmos n\u00e3o sofressem o mesmo n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o observado em outros estados ou pa\u00edses, e para que o bioma fosse realmente conservado como determina a Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n<p>Passei a atuar junto com a sociedade civil em rela\u00e7\u00e3o ao projeto de hidrovia Paraguai-Paran\u00e1 no in\u00edcio dos anos 1990 e, da\u00ed em diante, nunca mais vi a ci\u00eancia como uma atividade separada da sociedade. Desde ent\u00e3o, atuo diretamente no que hoje se discute como \u201cpapel social da ci\u00eancia\u201d, tentando encurtar o caminho entre a ci\u00eancia e os tomadores de decis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: E quais s\u00e3o os argumentos impeditivos a esses empreendimentos?<\/strong><\/p>\n<p>Os impactos da constru\u00e7\u00e3o de barragens na conserva\u00e7\u00e3o de ambientes aqu\u00e1ticos e de seus servic\u0327os ambientais \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o mundial. Com base nos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.onu.org.br\/rio20\/img\/2012\/01\/rio92.pdf\" target=\"_blank\">Princ\u00edpios da Precau\u00e7\u00e3o e da Preven\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0[Rio 92 &#8211; Confere\u0302ncia das Nac\u0327o\u0303es Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento], isso deveria ser discutido tecnicamente, de forma multidisciplinar, e deveriam ser realizados estudos para propor alternativas e a\u00e7\u00f5es mitigato\u0301rias.<\/p>\n<p>Todas as altera\u00e7\u00f5es e impactos no funcionamento hidro-ecol\u00f3gico de cada sub-bacia formadora do Pantanal deveriam ser avaliados de forma conjunta e integrada, levando-se em conta a \u00e1rea da Bacia Hidrogr\u00e1fica do Alto Paraguai e o Princ\u00edpio de Usos M\u00faltiplos, como determina a Lei de Recursos H\u00eddricos [Lei 9.433\/1997], bem como a Resolu\u00e7\u00e3o CONAMA 01\/1986 [que se refere \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de impacto ambiental como um dos instrumentos da Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente], antes de se implementar tais projetos.<\/p>\n<p>A multiplicidade de usua\u0301rios na regia\u0303o inclui ribeirinhos, pescadores profissionais e amadores, turistas, produtores rurais de pequeno a grande porte, os setores de turismo e navega\u00e7\u00e3o, ale\u0301m do setor ele\u0301trico.<\/p>\n<table width=\"300\" cellspacing=\"10\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u201c(\u2026) a lei determina que os usos m\u00faltiplos devem ser respeitados. Mas do jeito que est\u00e1, praticamente apenas um \u00fanico usu\u00e1rio, o setor el\u00e9trico, est\u00e1 utilizando os recursos naturais dos quais dependem milhares de pessoas\u201d.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o pesqueira \u00e9 a alma do Pantanal, culturalmente, socialmente e economicamente. E a lei determina que os usos m\u00faltiplos devem ser respeitados. Mas do jeito que est\u00e1, praticamente apenas um \u00fanico usu\u00e1rio, o setor el\u00e9trico, est\u00e1 utilizando os recursos naturais dos quais dependem milhares de pessoas. Na verdade, eles est\u00e3o se apropriando dos recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Mas o setor el\u00e9trico, e at\u00e9 mesmo representantes dos \u00f3rg\u00e3os licenciadores, alegam que as PCHs s\u00e3o a fio d\u2019\u00e1gua e que isso n\u00e3o prejudicaria os pulsos de inunda\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Todas as PCHs s\u00e3o a fio d\u2019\u00e1gua. \u00c9 o sistema de tomada de \u00e1gua, o desenho de engenharia da barragem, sem necessariamente formar reservato\u0301rio. O problema \u00e9 fazerem v\u00e1rias barragens num mesmo rio. Por exemplo, no rio Coxim, est\u00e3o previstas dezoito. A\u00ed cada uma vai alterando um pouco o fluxo das \u00e1guas e no final temos uma altera\u00e7\u00e3o expressiva. Ha\u0301 necessidade de barramentos, muitas vezes de altura elevada, de 10m a 40m, resultando tamb\u00e9m em alterac\u0327a\u0303o da descarga de nutrientes e material em suspensa\u0303o e, portanto, da ciclagem de nutrientes, importantes na manutenc\u0327a\u0303o da cadeia alimentar aqua\u0301tica e na interac\u0327a\u0303o terra-a\u0301gua, que resulta em fertilizac\u0327a\u0303o do solo, u\u0301til para o desenvolvimento de pastagens nativas, por exemplo.<\/p>\n<p>As PCHs s\u00e3o constru\u00eddas em \u00e1reas de cabeceiras, que s\u00e3o as \u00e1reas mais sens\u00edveis para o per\u00edodo reprodutivo dos peixes. Isso ret\u00e9m os sedimentos, os nutrientes, muda a temperatura da \u00e1gua do fundo e da superf\u00edcie, e s\u00e3o barreiras f\u00edsicas intranspon\u00edveis, interferindo na reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: E a recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em Mato Grosso do Sul e do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual que impedia o licenciamento desses empreendimentos at\u00e9 que fosse realizado um estudo integrado?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2011 esses \u00f3rg\u00e3os entraram com uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica para pedir uma Avalia\u00e7\u00e3o Ambiental Estrat\u00e9gica (AAE) na Bacia do Alto Paraguai, com o objetivo de mensurar esses impactos ambientais. Mas a a\u00e7\u00e3o est\u00e1 parada no Tribunal Regional da Justi\u00e7a Federal de S\u00e3o Paulo com uma liminar favor\u00e1vel aos empreendedores desde maio de 2013, sob a alega\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds j\u00e1 possui leis ambientais suficientes e que estas s\u00e3o devidamente seguidas pelos empreendedores e \u00f3rg\u00e3os gestores.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Ap\u00f3s essa derrota, voc\u00eas conseguiram chegar ao Plano de Recursos H\u00eddricos da Regi\u00e3o Hidrogr\u00e1fica do Paraguai. Como come\u00e7ou esse processo?<\/strong><\/p>\n<p>Em dezembro de 2009, publicamos, pela Embrapa Pantanal, recomenda\u00e7\u00f5es de especialistas internacionais que se encontraram no workshop\u00a0<a href=\"http:\/\/ainfo.cnptia.embrapa.br\/digital\/bitstream\/CPAP-2010\/57285\/1\/DOC102.pdf\" target=\"_blank\">\u201cInflu\u00eancias de usinas hidrel\u00e9tricas no funcionamento hidro-ecol\u00f3gico do Pantanal, Brasil\u201d<\/a>\u00a0realizado durante o VIII INTECOL \u2013 Confer\u00eancia Internacional de \u00c1reas \u00damidas, em Cuiab\u00e1 (20-25 de julho de 2008),cujo objetivo foi embasar tecnicamente e de forma multidisciplinar a discuss\u00e3o sobre a conserva\u00e7\u00e3o dos processos hidrol\u00f3gicos que regem o funcionamento e as inter-rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas caracter\u00edsticas do Pantanal Mato-Grossense.<\/p>\n<p>O documento discute com propriedade a import\u00e2ncia dos chamados \u201cpulsos de inunda\u00e7\u00e3o\u201d, ou ciclos de cheias e secas anuais e interanuais, os quais influenciam, por sua vez, as rela\u00e7\u00f5es sociais, culturais e econ\u00f4micas da popula\u00e7\u00e3o pantaneira.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os \u00f3rg\u00e3os estaduais licenciadores do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente continuaram a licenciar esses empreendimentos. A Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel) continuou a fornecer concess\u00f5es para gera\u00e7\u00e3o de energia. Tudo sem que nenhuma avalia\u00e7\u00e3o sobre o impacto conjunto e sin\u00e9rgico desses empreendimentos fosse realizado e sem qualquer planejamento em n\u00edvel de bacia, mesmo ap\u00f3s recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em Mato Grosso do Sul e do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual, em 2011, para que se atendesse ao que determina a Resolu\u00e7\u00e3o CONAMA e a Lei das \u00c1guas, bem como aos princ\u00edpios da Conven\u00e7\u00e3o Ramsar de Conserva\u00e7\u00e3o de \u00c1reas \u00damidas de Interesse Internacional, que o nosso pa\u00eds tem o compromisso moral de atender \u2014 pois \u00e9 signat\u00e1rio da Conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Plan%C3%ADcie-pantaneira-com-rio-Paraguai-ao-fundo-por-Fabio-Pellegrini.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Plan%C3%ADcie-pantaneira-com-rio-Paraguai-ao-fundo-por-Fabio-Pellegrini-1024x683.jpg\" alt=\"Plan\u00edcie pantaneira com rio Paraguai ao fundo por Fabio Pellegrini\" width=\"614\" height=\"410\" \/><\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_42756\">\n<p>Din\u00e2mica de inunda\u00e7\u00e3o da plan\u00edcie pantaneira depende diretamente do que ocorre nas cabeceiras dos rios no planalto. Qualquer altera\u00e7\u00e3o nesse processo natural p\u00f5e em risco a biodiversidade e a economia da regi\u00e3o. Foto: Fabio Pellegrini<\/p>\n<\/div>\n<p>Ent\u00e3o, ap\u00f3s muitas reuni\u00f5es e embates, n\u00f3s conseguimos, por meio das Resolu\u00e7\u00f5es<a href=\"http:\/\/www.ceivap.org.br\/ligislacao\/Resolucoes-CNRH\/Resolucao-CNRH%20145.pdf\" target=\"_blank\">n\u00famero 145<\/a><br \/>\ne\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cnrh.gov.br\/index.php?option=com_docman&amp;task=doc_download&amp;gid=1713&amp;Itemid=9\" target=\"_blank\">152<\/a>\u00a0do Conselho Nacional de Recursos H\u00eddricos, que a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) fosse respons\u00e1vel por fazer um Plano de Recursos H\u00eddricos da Regi\u00e3o Hidrogr\u00e1fica do Rio Paraguai.<\/p>\n<p>Antes dessas Resolu\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se podia fazer um Plano de Bacia onde n\u00e3o existia ainda um Comit\u00ea de Bacia Hidrogr\u00e1fica oficialmente instalado. Na Resolu\u00e7\u00e3o 152 foi previsto um Grupo de Acompanhamento desse plano, o GAP, que funcionaria como um \u201cpr\u00e9-Comit\u00ea\u201d da bacia.<\/p>\n<p>Esse Plano n\u00e3o \u00e9 mais um estudo, uma vez que a bacia j\u00e1 \u00e9 relativamente bem estudada, mas vai utilizar tudo o que j\u00e1 existe de informa\u00e7\u00e3o para poder planejar principalmente a quest\u00e3o das hidrel\u00e9tricas, com algumas pesquisas a mais, ainda previstas para complementar as informa\u00e7\u00f5es faltantes a serem coordenadas pela Embrapa Pantanal e parceiros.<\/p>\n<p>Isso foi um esfor\u00e7o da Rede Pantanal de ONGs e Movimentos Sociais, que envolve organiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m da Bol\u00edvia, Paraguai e Argentina, em conjunto com pesquisadores e, em especial, o F\u00f3rum Nacional da Sociedade Civil nos Comit\u00eas de Bacias Hidrogr\u00e1ficas &#8211; FONASC, que tem cadeira no Conselho Nacional de Recursos H\u00eddricos.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Quanto tempo \u00e9 necess\u00e1rio para essa avalia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<table width=\"300\" cellspacing=\"10\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u201cO setor el\u00e9trico manda na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos no Brasil\u201d.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O GAP tamb\u00e9m foi criado em 2013, e a primeira reuni\u00e3o foi em novembro de 2014. Na reuni\u00e3o mais recente ocorrida [2 de setembro de 2015], por exemplo, a ANA j\u00e1 apresentou a primeira parte do diagn\u00f3stico, elaborada a partir de informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes; a Embrapa Pantanal, como vimos, coordena a parte cient\u00edfica de estudos que ainda precisam ser feitos, principalmente sobre peixes. Todo esse processo deve ainda levar de 2 a 3 anos.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: E isso, para os empreendedores, \u00e9 tempo demais?<\/strong><\/p>\n<p>O setor el\u00e9trico manda na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos no Brasil. As pessoas s\u00e3o capazes de mentir, de desconstruir fatos e estudos. Estamos vivenciando uma guerra por recursos naturais e os prejudicados s\u00e3o sempre as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, que dependem diretamente dos recursos naturais ainda saud\u00e1veis. Os pequenos produtores, os pescadores, os ribeirinhos&#8230; O pulso de inunda\u00e7\u00e3o tem a fun\u00e7\u00e3o de limpar naturalmente as \u00e1reas de pastagem e de fertiliz\u00e1-las oferecendo pasto com n\u00edvel nutricional melhor. N\u00e3o consigo entender&#8230;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a minha posi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e tamb\u00e9m como cidad\u00e3. Sou uma das poucas pessoas que est\u00e3o enfrentando isso. No come\u00e7o eu sofria, ficava chateada. \u00c9 de ficar abismado como eles tentam manipular, obstruir, desrespeitar&#8230; Depois eles dizem: \u201cAh, voc\u00ea que n\u00e3o entendeu direito\u201d.<\/p>\n<table width=\"300\" cellspacing=\"10\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u201cMas o Pantanal tem uma quest\u00e3o b\u00e1sica: est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o Federal que devemos conservar o bioma\u201d.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Mas o Pantanal tem uma quest\u00e3o b\u00e1sica: est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o Federal que devemos conservar o bioma. Est\u00e3o desrespeitando a Constitui\u00e7\u00e3o, eu, enquanto cidad\u00e3, fico envergonhada disso. Est\u00e3o desrespeitando as leis em vigor e os acordos internacionais. Por isso passei a filmar as reuni\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>((o))eco: H\u00e1 estudos cient\u00edficos que comprovem que essas usinas hidrel\u00e9tricas, mesmo as pequenas, afetariam a vida de quem vive rio-abaixo desses empreendimentos?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, este tema j\u00e1 \u00e9 bem estudado tanto nacional quanto internacionalmente. Eu mesma fiz um estudo pr\u00e9vio muito simples que mostra isso. Entrevistei a Federa\u00e7\u00e3o de Pescadores de MT e MS e o setor do turismo de pesca de apenas duas cidades: C\u00e1ceres (MT) e Corumb\u00e1 (MS), que giram em torno de R$ 320 milh\u00f5es\/ano, sem falar em Coxim, Aquidauana, Bar\u00e3o de Melga\u00e7o, Cuiab\u00e1, entre outras cidades da bacia que dependem da pesca profissional e tur\u00edstica para sua economia, em maior ou menor grau. Se levarmos em conta todas essas cidades, podemos estimar um total em torno de R$ 1 bilh\u00e3o\/ano s\u00f3 de pesca. Ent\u00e3o, como se manter\u00e1 uma economia nesse n\u00edvel, que n\u00e3o \u00e9 pequeno, e mant\u00e9m a gera\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de renda que envolve desde o dono do barco-hotel, a cozinheira, a camareira, o guia de pesca e o coletor de iscas vivas com todos os rios barrados?<\/p>\n<p><strong>((o))eco: Na velocidade em que os empreendimentos est\u00e3o sendo implantados, qual o cen\u00e1rio futuro?<\/strong><\/p>\n<p>Em menos de dez anos cresceu 500%. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que h\u00e1 grupos internacionais investindo nisso. \u00c9 assustador voc\u00ea ver que h\u00e1 servidores p\u00fablicos que acham que tudo bem, que se pode continuar licenciando sem qualquer problema&#8230;<\/p>\n<p>Acho interessante salientar que sem a conserva\u00e7\u00e3o dos processos ecol\u00f3gicos, ou melhor, hidro-ecol\u00f3gicos, que regem o funcionamento do Pantanal, a densidade de animais selvagens, t\u00e3o atrativa para o turismo, a pesca e o turismo de pesca, como atividade econ\u00f4mica que mais distribui renda e gera empregos, e a conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas, que s\u00e3o caracter\u00edsticas desta Reserva da Biosfera, estar\u00e3o amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>Se juntarmos com o alto n\u00edvel de desmatamento do planalto que circunda a plan\u00edcie pantaneira, onde est\u00e3o as nascentes dos seus rios formadores, o projeto da Hidrovia Paraguai-Paran\u00e1, o desmatamento na plan\u00edcie, inclusive para a expans\u00e3o da soja, isso seria o fim do Pantanal como o conhecemos hoje. Ficar\u00e1 igual \u00e0 plan\u00edcie do Paran\u00e1, sem biodiversidade, sem pesca. A op\u00e7\u00e3o \u00e9 dos tomadores de decis\u00e3o e da sociedade. Nosso papel j\u00e1 fizemos.<\/p>\n<p><strong>Leia Tamb\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/27709-pantanal-um-ilustre-desconhecido-do-brasileiro\/\" target=\"_blank\">Pantanal, um ilustre desconhecido do brasileiro<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/reportagens\/24840-no-pantanal-caca-ajuda-especies-nativas\/\" target=\"_blank\">No Pantanal, ca\u00e7a ajuda esp\u00e9cies nativas<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/dicionario-ambiental\/27257-entendendo-o-pantanal\/\" target=\"_blank\">Entendendo o Pantanal<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/28656-mp-quer-suspender-licenciamento-de-3-hidreletricas-no-pantanal\/\" target=\"_blank\">MP quer suspender 3 hidrel\u00e9tricas no Mato Grosso do SulPrfa . <\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/28656-mp-quer-suspender-licenciamento-de-3-hidreletricas-no-pantanal\/\" target=\"_blank\">Debora Calheiros*\u00a0<\/a>-Represetnante \u00a0das Organizacoes Civis pelo FONASC no GAP -PARAGUAI &#8211; Grupo de acompanhamento do Plano de Bacias do Rio Paraguai.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u201cO setor el\u00e9trico manda na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos no Brasil\u201d. 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Debora Calheiros* A pesquisadora D\u00e9bora&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14120"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14120"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14122,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14120\/revisions\/14122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fonasc-cbh.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}